ESCRITOR
Já participei de diversos debates sobre a formação da escrita literária, onde cada um se empenha em dar a sua opinião sobre o assunto, tendo conhecimento ou não. Estudam uma maneira de formar jovens escritores, congregando-os em oficinas que tanto podem apresentar-se como uma fonte de incentivo à escrita, como também servir de palco para um tremendo bicho-papão que amedronta e trava o linguajar espontâneo e original de um talento que desponta no cenário das letras.
No meu entendimento, há que se criar aulas dinâmicas de redação desde a mais tenra infância pois se a criança for estimulada desde os primeiros anos de sua fase escolar, certamente saberá desenvolver o próprio pensamento e colocá-lo no papel sem medo de errar ou acertar, uma vez que estará sendo coerente com as suas ideias. A correção faz parte de uma segunda etapa nesse processo criativo. O estudante tem que ter liberdade de expressão. Escrever é uma arte que liberta. Contudo, não se pode esperar o mesmo desempenho de todos porque são poucos os que realmente têm o dom para se manifestar dessa forma. As pessoas não convergem para o mesmo meio artístico. Portanto, o principal é deixar que os jovens pensem livremente e depois, manifestem-se a vontade sobre o assunto que quiserem discorrer. Somente assim, os alunos ficarão desinibidos diante de um texto que estejam tentando montar. Se forem podados desde o início, acharão que não servem para esse tipo de atividade. E escrever tem que ser um ato natural de cada indivíduo porque a maioria das profissões requer essa condição básica para o exercício de um bom trabalho.
Para quem sabe escrever bem, as portas se abrem e o reconhecimento é logo notado. Mas, ninguém consegue atingir essa proeza se não tiver muita leitura como combustível para colocá-la em movimento. Quem lê bastante, adquire um vocabulário enorme que se acumula no inconsciente, onde se aloja para os momentos de necessidade, não deixando que faltem as palavras certas na hora de praticar a escrita.
Parece que o pensamento dominante nos meios literários é formar escritores.
Contudo, não vejo entre esses catedráticos, a preocupação de lutar pela legalização da profissão de escritor que, no Brasil, não é oficializada. Em nosso país, existe a profissão de jornalista, escrivão e todas as demais, porém, escritor, é inexistente. Isso, já era para ter mudado. Em países desenvolvidos, uma das profissões mais concorridas e disputadas é a de escritor.
Lembro-me que, certa vez, estava eu numa fila juntamente com outras pessoas. Uma repórter de TV dirigiu-se a mim questionando-me sobre a minha profissão. Respondi-lhe que era escritora. Ela riu de maneira debochada e nada mais me perguntou. Claro, na época, eu não era conhecida e nem a Academia Passo-Fundense de Letras tinha a tamanha repercussão que tem atualmente. Fiz papel de tola pois devido ao fato de não existir oficialmente a profissão de escritor, tive que pagar esse mico. Acho que está na hora de começarmos a pensar e a lutar para tornar a profissão de escritor tão legal quanto qualquer outra existente no mercado de trabalho. Se somos ilustres desconhecidos agora, talvez, no futuro, venhamos a ter alguns livros de relevante importância no mundo das letras.
Há muito tempo toquei nesse assunto entre os meus confrades.
Escutaram respeitosamente a minha exposição, mas alegaram que ninguém consegue sobreviver como escritor no Brasil e isso justificaria a não legalização dessa profissão, por enquanto. No entanto, há muitas outras profissões que também não garantem a sobrevivência da pessoa humana, tendo ela que apelar para outros bicos que lhe permitam viver com dignidade mesmo tendo sido registrada em sua carteira de trabalho dentro de uma ou outra categoria específica.
Este é o momento de começarmos a avaliar os nossos conceitos como escritores, sendo iniciantes ou experientes, desconhecidos ou famosos, vencedores ou fracassados, mas ainda assim dignos de crédito pela coragem de nos expormos, sendo a voz que se levanta na defesa dos que se calam.
Elisabeth Souza Ferreira
Ex-Presidente da Academia Passo-Fundense de Letras)
